Quinta-feira, Março 31

ar


Nesse dia não há como respirar. Tento num desespero calmo puxar bem fundo, mas o ar que entra não consegue passar pela garganta, pára porque não existe mais espaço aqui, tá cheio até a boca de sentidos, pendências, vontades... A cabeça não descansa mesmo, tive pesadelos a noite toda, sonhei até que estava presa num buraco, mas eu não conseguia gritar, quando a boca mexia, o que saía era mudo. E ao acordar nessa agonia, não respirava, sentia no lugar uma sensação de marimbondos voando dentro de um corpo, causando náuseas, chamando atenção, me deixando tonta e alheia a um mundo lá fora. Tento numa calma absurda me livrar deles diluindo-os em lágrimas, e elas me surpreendem e falham, fecho os olhos forte e não as sinto escorregarem no rosto. Acho que naqueles dias ruins que se foram, elas tenham deixado de existir. Penso então em tirar de mim os marimbondos junto a palavras faladas. Mas jamais conseguiria, por um orgulho absurdo que mora aqui, jamais diria sobre eles, seria dar braço a torcer, e então prendo-os todos aqui, num simples trincar os dentes com um sorriso. Melhor! soltar os bichinhos é permitir que penetrem por outras peles, que se prendam em outros corpos. Prefiro que fiquem. Até que no fim do dia crio coragem para ver, me sinto como se tivesse uma corda cheias de nós, alguns se sobrepondo, outros bem apertados pelo tempo. Alguns tão embolados que precisam de uma dedicação e paciência de Jó para que se soltem. Respiro fundo mais uma vez, acalmo os marimbondos aqui dentro e percebo que existem nós que precisam serem desfeitos sozinha, numa espécie de solidão de auto conhecimento, de procurar meus limites, de coragem. Procuro a ponta da corda para começar. Ouço a voz dos meus pais, fecho os olhos, óro baixinho buscando calma e força. E aos poucos sinto um ar nutrindo um corpo, um sangue que corre e um coração gritando uma vida, que pulsa aqui dentro, agora!

Desenho de Higor Ferraço